Siga-nos no Facebook
Tupinikim

Aos leitores de olhares

Aos leitores de olhares

Cotidiano

Aos leitores de olhares

Em tempos de sensibilidade minguada, de olhares que fogem uns dos outros e que passam mais tempo voltados para telas de celulares, me descobri perplexa e comovida ao constatar que ainda existem leitores de olhares.

Por Patrícia Pinheiro

Todos nós, em algum momento da vida, independente de qual seja a causa, passamos por momentos difíceis. São aqueles dias em que a vida perde a cor, o mundo lá fora é assustador, mas viver dentro dos nossos próprios corpos também é. São os dias em que gostaríamos de sumir, mas não temos para onde; em que gostaríamos que alguém nos abraçasse e pudesse simplesmente captar e entender toda toda a tortura e agonia que explode dentro de nós, assim, sem que precisemos dizer uma palavra.

Ultimamente, dados alguns acontecimentos que não poderiam me deixar de outra forma, tenho estado “nesses dias”. Comer é um sufoco. Sair de casa é um sufoco. Falar sobre os meus sentimentos? Dificílimo. Visto o melhor sorriso que consigo, cubro as olheiras com maquiagem e saio por aí fazendo o necessário. Exceto pela perda de peso que sempre denuncia que as coisas não vão muito bem comigo, eu engano direitinho. Alguns dias são melhores; noutros, levantar da cama é missão impossível, mas, como sou mestre em ocultar sentimentos – ainda que não o faça de forma voluntária – poucos parecem notar a diferença.

Mas, recentemente, um amigo que eu e minha mãe fizemos em uma de nossas andanças pelo shopping – uma daquelas raras pessoas que ainda carregam sorrisos de criança e que parecem ter nascido com a função de ser anjo para aqueles que precisam – me chamou a atenção ao acertar, por vários dias seguidos, antes mesmo que eu tivesse tempo de esmiuçar qualquer expressão facial ou dizer alguma palavra, como estava o meu estado de espírito: “Patrícia, hoje tu não tá muito bem, né?” “Olha, tô feliz de te ver, hoje tu estás bem!”

Comecei a ficar intrigada, resolvi até testá-lo. Num determinado dia em que nos encontramos, não estava me sentindo muito bem, mas, mesmo assim, propositalmente caprichei no sorriso e na empolgação ao cumprimentá-lo e, para minha surpresa, ele olhou demoradamente para o meu rosto e concluiu: “Patrícia, não gostei do que vi, tu não estás bem!” Bruxaria? Leitura de pensamentos? A curiosidade estava me matando e decidi perguntar: “Caca, qual é o segredo? Como tu sempre adivinha se eu estou ou não bem?” “É simples, Patrícia” – ele respondeu “Quando tu estás feliz, teus olhos brilham”.

Isso não saiu mais da minha cabeça. Em tempos de sensibilidade minguada, de olhares que fogem uns dos outros e que passam mais tempo voltados para telas de celulares, me descobri perplexa e comovida ao constatar que ainda existem leitores de olhares. Mal eu sabia que meus olhos me denunciavam. Talvez eles tivessem a espera de outros que ainda preservassem suficiente inocência para serem capazes de ver o que ninguém mais vê, de enxergar os brilhos que são visíveis apenas a almas nuas.

Graças a ele, agora sei o que perseguir, agora tenho um medidor de felicidade mais genuíno do que qualquer riso espontâneo que os meus lábios possam vir a formar; agora sei que, ainda que eu tenha conhecido a escuridão, meus olhos sempre serão capazes de brilhar e que, quando isso acontecer, terei a certeza de que haverá alguém no mundo apenas esperando para dizer: “Nunca perca esse brilho”.

Leia também:

Curta Tupikim no Facebook

Sobre o autor:

Gaúcha e estudante de Psicologia. É escritora e revisora de textos na Sociedade Racionalista, colunista do CONTI outra, artes e afins, Fãs da Psicanálise, Inspiring Life, Caminhos e escreve, ainda, para o Blogueiras Feministas, Brasil Post, Benfazeja, Psiconline Brasil e Puta Letra. É feminista, apaixonada por moda e assumidamente viciada em filmes e séries. Ainda irá viver da escrita.

6 comentários

6 Comments

  1. Ana Melo

    19 de Março de 2015 at 21:20

    Lindo demais, parabéns!

  2. Daguia Job

    21 de Março de 2015 at 00:05

    Adorei o texto!!!!

  3. Cynthia Guerra

    24 de Março de 2015 at 20:47

    Uma vez uma pessoa mto especial me disse que um beijo no olho é como se vc estivesse beijando a alma dessa pessoa. Sou apaixonada por certos olhares. Contemplar um olhar, assim com aquela ingenuidade, coisa rara de se encontrar, é um passaporte para as melhores sensações do mundo.

  4. Lurdinha Lunelli

    25 de Março de 2016 at 21:18

    Lindo texto, pois é assim que me sinto de uns dias pra cá, mas tbém tenho certeza que sou táo transparente que meu olhar me entraga sempre.

  5. Marcinha Alexandre

    27 de Março de 2016 at 19:16

    Lindo

  6. Salomão Carneiro

    11 de Abril de 2016 at 23:13

    Amei ❤️

Escreva um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Publicidade

Leia mais em Cotidiano

Siga TUPINIKIM no Facebook

POSTS RECENTES

Como reconhecer se um homem é emocionalmente inteligente

Autoconhecimento e desenvolvimento pessoal

Como reconhecer se um homem é emocionalmente inteligente

Por 20 de outubro de 2017
Quando seu filho se sente triste

Família

Quando seu filho se sente triste

Por 24 de julho de 2017
bater em uma criança
Tomar café prolonga a vida?

Saúde & Bem-estar

Tomar café prolonga a vida?

Por 11 de julho de 2017
Algumas dicas úteis para melhorar a autoestima

Psicologia e comportamento

Algumas dicas úteis para melhorar sua autoestima

Por 9 de julho de 2017

Buscar por categoria

Comentários

Curta Tupinikim no Facebook
Subir