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Quem sabe brincar?

Sobre a importância de brincar com os filhos

Por Camila Goytacaz

Chegou o Dia das Crianças. Vejo muita gente correndo para comprar o presente, escolhendo o brinquedo mais incrível, e me pergunto: quem vai brincar com estas crianças? Digo isso porque meu filho Pedro Luis, hoje com 3 anos, me pegou de surpresa quando começou a me chamar para brincar. Eu sabia muito bem trocar fraldas, dar banho e fazer papinhas. Mas brincar? Sinceramente, não me lembrava como era e nunca tinha pensado que isso seria minha função, em seu processo de desenvolvimento. Imaginar uma floresta, entrar na toca, ver tudo se transformar e deixar que ele conduzisse aquilo, afinal era a imaginação dele que estava tão fértil, foi um grande aprendizado para mim. Assumo, eu não me recordava do que realmente era brincar. E nem de como é bom brincar.

Existe sim um momento em que eles gostam e talvez até precisem brincar sozinhos, mas convidar à brincadeira o adulto em que confiam é uma grande prova de amor, que fala muito sobre a interação humana, e deve ser valorizada. Nas brincadeiras, os sentimentos, os aprendizados, a vida da criança se expressa. Não brincar com seu filho é, de certa forma, não ouvir o que ele tem a dizer.

Ter uma criança em casa é permitir que a fantasia chegue, é convidá-la a entrar. É reconhecer que, como adultos, já não sabemos mais o que é divertido na brincadeira, e então deixar que as crianças proponham e conduzam a atividade.

Depois que percebi a minha dificuldade em brincar, fiquei mais atenta ao comportamento dos outros. Vi que pouca gente de fato senta no chão para brincar com a criança. Sugerem que ela brinque enquanto cuidarão de suas coisas de adulto. Quando finalmente brincam juntos, tendem a dar ordens do que deve ser feito: encaixe esta peça aqui, coloque a tampa naquela panelinha, mexa assim ou assado.

Isso não é brincar. Não da forma como é preciso, não com liberdade. As crianças precisam exercitar e deixar fluir tudo o que suas mentes infinitas estão enxergando. Outro dia presenciei esta cena: o adulto dizendo assim para meu filho: está errado, este é o limite do desenho, o contorno do esquilo, você não deve pintar fora destas linhas, deve pintar o esquilo, entende? E ele responde, um tanto indignado: mas isso não é um esquilo, é um dragão, você não está vendo o dragão?

Enxergar um dragão onde a figura é esquilo é saber brincar. Passear pela selva e conversar com os bichos que se aproximam, sentir a cachoeira no chuveiro, chamá-lo de jumento quando ele resolveu ser este bicho, mesmo que pareça um pouco estranho aos ouvidos, deixar que a comida seja de chocolate com milho ou que os blocos formem uma torre cuja base é muito menor do que o topo e que certamente despencará, isso é brincar. Fugir da lógica e ignorar a razão. Isso é brincar.

Não sabemos mais fazer isso. A gente esqueceu. Mas eles sabem. E querem nos ensinar. Temos apenas que deixar. Deixar que eles nos conduzam pelo lindo mundo da fantasia, onde leões urgem, bonecos sem cabeça dançam, onde o dia amanhece várias vezes sem que a noite nunca chegue.

Brincar é reconhecer que nós não estamos (ou, ao menos, não deveríamos estar) no controle da vida das crianças. Somos seus pais e cuidadores, estamos aqui para zelar por eles, mas a verdade é que crescem e vivem independentemente da gente, além da gente, aliás, muito além da gente. São indivíduos providos de grande sabedoria, e apenas se a gente permitir, terão a generosidade de compartilhar conosco toda a riqueza que trazem em si.

O que desejo para o Dia das Crianças de todos nós é um dia de menos brinquedos e mais brincadeiras. De menos presentes e mais presença. De menos dar e mais receber. Desejo que, ao menos neste dia, os adultos também consigam ser, de novo e ainda que breve, crianças que brincam.

Texto de Camila Goytacaz – Portal Maternidade Consciente

Sobre o autor:

Equipe de redação do site

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