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O Bullying mata o corpo e a alma e é urgente falar sobre isso

O Bullying mata o corpo e a alma e é urgente falar sobre isso

Psicologia e comportamento

O Bullying mata o corpo e a alma e é urgente falar sobre isso

Neste momento, inúmeros jovens sofrem calados com a perversidade do bullying, que intimida as vítimas e as leva a buscar uma saída possível, ou um fim.

O que é Bullying?

Bullying vem do inglês (do verbo bully = machucar, tiranizar ou ameaçar alguém) e compreende toda forma de agressão, física ou verbal, proposital e repetitiva contra uma pessoa, dentro de uma relação desigual de forças ou poder, a fim de intimidá-la ou maltratá-la sem que ela tenha condições de se defender, causando muito sofrimento ou mesmo levando a pessoa à morte por suicídio.

Bullying

Para Sylvia e as milhares de vítimas de bullying que sofreram e sofrem caladas.

Filhas de um casal de atores circenses, Sylvia e sua irmã mais nova acabam ficando sob os cuidados de uma conhecida enquanto seus pais iriam trabalhar numa nova temporada do circo. A cuidadora, entretanto, começa a descontar sua ira nas duas garotas, castigando-as corriqueiramente e empregando intensa pressão psicológica. Acontece que o foco da agressão sobre Sylvia ganha as maiores e mais grotescas proporções. Vítima de rumores e fofocas na escola criados pela cuidadora, Sylvia é deixada no porão de sua nova casa, sendo brutalmente espancada e obrigada a consumir suas próprias fezes e urina por dias; tanto a dona da casa quanto alguns colegas da escola frequentavam o porão para praticar os atos de espancamento. Certo dia a deixaram amarrada e, com a ajuda de uma agulha aquecida, cravaram sobre sua pele a inscrição “sou uma prostituta, e tenho orgulho disso”. Sylvia Likens morreu aos 16 anos de hemorragia cerebral no dia 26 de outubro de 1965 na cidade de Indianápolis, Estados Unidos. Tal fato foi amplamente divulgado pela mídia da época, sendo o julgamento de Gertrude Baniszewski, a perversa cuidadora, muito comentado. Ainda, o que mais chamou a atenção nos depoimentos dos colegas da escola de Sylvia é que todos, sem exceção, confirmaram os fatos e simplesmente disseram que não entendiam o porquê daquilo que perpetraram contra a indefesa garota. O que fazer com esse silêncio? Quer dizer, como se pode investigar este tipo de atitude?

Bullying, é preciso e urgente falar sobre isso.

Neste exato momento, inúmeros jovens sofrem calados. Isso porque a perversidade que envolve o universo do bullying investe tamanha intimidação sobre as vítimas que, indefesas socialmente e subjugadas psicologicamente, são levadas a procurar uma saída possível, ou um fim. Não é incomum lermos sobre casos de suicídio envolvendo crimes de bullying ou de homicidas convictos (atiradores em escolas, principalmente) que teriam sido vítimas desta prática perversa na sua história. O bullying ganha vida significativa na comunicação do mundo após o massacre de Columbine, quando Eric Harris e Dylan Klebold, ambos alunos, assassinaram 12 colegas de escola e um professor na Columbine High School em 1999, cometendo suicídio em seguida. Segundo investigações da época, os dois atiradores teriam sido vítimas de bullying por quatro anos. Infelizmente, tal fenômeno é difícil de ser captado e tratado a tempo de não se tornar uma situação mais traumática. Em março deste ano, Marta Avelhaneda Gonçalves, de 14 anos, foi estrangulada dentro da sala de aula na cidade de Porto Alegre; o estrangulamento foi executado por uma colega de escola, dois anos mais nova. Conforme a reportagem do Estadão, a vítima era nova no colégio e sofria bullying.

Mas, afinal, o que é “bullying” e como é possível enquadrar um fenômeno dentro deste campo? O termo “bullying”, que na língua Inglesa é um substantivo do verbo “bully”, significa machucar, tiranizar ou ameaçar alguém. Os estudos sobre o bullying começam antes do massacre de Columbine, pelo professor de psicologia Dan Olweus, da Universidade de Bergen, Noruega. Na década de 1980, o professor Olweus iniciou a primeira pesquisa sistemática sobre o tema e seu livro “Bullying na escola: o que nós sabemos e o que podemos fazer” (1993 — tradução nossa do título) foi um de seus principais trabalhos. Trata-se de uma prática perversa que inclui um sujeito para se tornar objeto de outros sujeitos. É notório que existem outros fenômenos que poderiam se enquadrar numa situação parecida, sendo o estupro um deles (item que poderia agregar-se num caso de bullying, inclusive), mas o bullying possui algumas características próprias e que sobre as quais devemos discorrer neste breve artigo.

A miséria humana não é uma novidade, mas as significações do cinismo, pedra fundamental da perversidade, configuram situações próprias dentro de um determinado contexto, como seria o contexto do bullying. O ambiente escolar, local predileto, não possui, todavia, contrato de exclusividade. Acontece que a escola, por ser repetição dos dias úteis, surge como opção para que a prática veicule. E a repetição é uma das principais características do bullying, porque a vítima é posta numa situação corriqueira de atentados contra seu status humano. Algo da vítima é sempre colocado em evidência, seja uma condição do biotipo, gestual, vocal, religiosa e ou algo da ordem de um boato. Mas depois, sob ataque, já não existem mais condições de dedução preconceituosa, pois o que resta são indivíduos tomados pela disposição da violência e um sujeito que é receptor do ódio.

Bullying

Enquanto estão sozinhos, ou sem a supervisão de um adulto, crianças e jovens podem agir e coagir sem que os outros responsáveis percebam algo diferente

Normalmente, a organização escolar como um todo não consegue lidar ou tratar deste fenômeno de um modo adequado. Isso porque tudo tem um começo e o começo do bullying é sempre uma significação que surge da quietude. Enquanto estão sozinhos, ou sem a supervisão de um adulto, crianças e jovens podem agir e coagir sem que os outros responsáveis percebam algo diferente. A vítima do bullying normalmente silencia na medida em que o silêncio é imposto na chegada do adulto responsável, seja ele da escola, do condomínio ou de outro lugar. Trata-se de um misto de alívio, pela chegada de alguém que representa uma certa ordem e também de um momento de refazimento, já que as ações do bullying deixam as vítimas gravemente machucadas psicologicamente e, certas vezes, fisicamente também (esconde-se os machucados se possível). Esses sujeitos objetificados sentem-se sugados, atrofiados mesmo, e então não conseguem tocar neste assunto nem mesmo dentro de casa. A denúncia daquilo que foi perpetrado fica considerada como mais um golpe na autoestima, já que falar sobre o ocorrido fica normalmente na ordem da vergonha, do embaraço. Como dizer aos próprios pais que sentem-se e são rejeitados pelas outras pessoas?

Algumas crianças ou jovens conseguem expor os fatos, mas à vezes são golpeados novamente pelos professores, diretores, psicólogos escolares e até mesmo pelos seus próprios pais, recebendo a notícia de que aquilo que os fazem sofrer tanto na verdade é um capricho deles mesmos e que eles devem revidar, contra-atacar. Como seria possível revidar num ambiente insalubre desses? Quando alguém chega ao ponto de solicitar a ajuda de outros, é porque sozinho não é possível mais encontrar uma saída. É nesse tipo de situação que pode-se verificar o suicídio, fim comum para quem não encontra uma saída. O bullying enquanto fenômeno envolve vítimas que não possuem apenas essa questão para ser resolvida, pois são seres que, além do fim dessa situação nefasta, necessitam também de apoio moral e psicológico. O bullying causa um estrago, um trauma.

Realmente, tal fenômeno carece de atenção, principalmente no seu início. Mas o que também pode importar nos dias atuais, tempos de intolerância exacerbada, é debater sua profilaxia. Crianças repetem na escola aquilo que vivem nas suas casas, na relação com aqueles que as criam. É urgente se questionar sobre quais são os exemplos que estão sendo passados para as novas gerações. Exemplos, aqui, no sentido daquilo que é expresso não por meio de sermões ou imposições, mas na condição do respeito. É que o bullying, naquilo que se revela como universal, sempre surge com uma vítima, um algoz principal e demais coadjuvantes que auxiliam na violência e ou apenas assistem calados ou risonhos. Normalmente o algoz é um sujeito complexado por relações familiares doentes. Por isso, prestar atenção nos filhos, enquanto pais, e nos alunos, enquanto professores e supervisores escolares, é extremamente importante.

Mas, o que fazer com uma vítima de bullying?

vítima de bullying

Como ajudar uma vítima de bullying?

Infelizmente não existe um guia prático que responda tal questionamento, pois cada caso é sempre um caso específico. Todavia, algumas saídas podem ser encontradas por pais, professores e diretores em consonância com os desejos do sujeito. Muitas vezes, conversar com a classe ou punir os agressores não adianta muito. É preciso que os cuidadores dessa criança ou jovem estejam inteiros e prontos para darem o seu melhor em conversas, criar passeios e provocar interações com pessoas amorosas do círculo familiar e social. Exacerbar o fato, intrigando na mente do sujeito o ódio pelos agressores não parece ser também uma saída inteligente.

Quando se nota uma mudança de comportamento brusca na criança ou no jovem é certamente uma condição importante que pode ser um primeiro índice do bullying que está ocorrendo. Pessoas que sofrem bullying normalmente tornam-se mais introspectivas do que habitualmente são, pois tentam evitar as relações para que não sejam tentadas a desabafar ou mesmo para que não sofram ainda mais violência. A apreensão de uma situação de bullying pode e deve preocupar pais, professores, amigos, etc. Por vezes, a melhor saída, já que existe um sofrimento e uma urgência para que tal situação se finde, pode ser realmente a mudança de escola e, dependendo do caso, até de bairro ou cidade. As análises psicanalíticas com especialistas em jovens e crianças é sempre um recurso a mais, que auxilia muito a vítima e sua família. Ter uma chance de recomeçar pode ser a esperança que faltava para conseguir olhar no amanhecer mais uma oportunidade da vida, para produzir e ser um indivíduo no mundo social.

Voltaremos a tratar deste assunto mais vezes…

* Para quem se interessou sobre a história de Sylvia Likens, é possível saber mais por meio do filme “American Crime” (Tommy O’Haver, 2007), disponível no Netflix.

** Se você quiser conversar mais sobre este assunto, entre em contato comigo: felipejbueno@gmail.com.

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Sobre o autor:

Felipe Bueno – Semioticista e psicanalista (PUC-SP, associação Livre-SP), atua na área de pesquisa em psicanálise lacaniana e semiótica peirceana; autor da pesquisa “A banalidade do mal sob a perspectiva da Ética” (PUC-SP 2016), uma releitura semiopsicanalitica do caso Eichmann e o fenômeno da banalidade do mal descrito por Hannah Arendt. Atualmente se debruça sobre o tema do pós-humano para tentar entender como as significações das coisas de hoje estão balizando o futuro da humanidade na Terra.

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