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O “ser” e a ruína dos relacionamentos

O “ser” e a ruína dos relacionamentos

Psicologia e comportamento

O “ser” e a ruína dos relacionamentos

O “ser” e a ruína dos relacionamentos

De desculpa em desculpa, de acusação em acusação um relacionamento vira pó, esvai-se. Lidar com o outro é certamente uma das tarefas mais difíceis, mais penosas e muitas vezes mais desgostosas que podemos experimentar no curso de nossas vidas

Não é de hoje, nem de ontem, talvez seja de sempre, que o assunto “relacionamento” é um dos que mais interessam; na falta ou no excesso, os relacionamentos não só dizem respeito à relação que temos com os outros, mas, mais ainda, sobre a relação que temos conosco ou, como poderíamos dizer, com nossos próprios pensamentos. Não é de hoje, nem de ontem, talvez seja de sempre, que buscamos certa linearidade na vida (na sua irregularidade quase irônica), quando a segurança de saber com quem nos relacionamos e quem somos nos relacionamentos torna-se cada vez mais um objeto de desejo. Estar no controle parece ser uma obsessão da era hipercapitalista, pois “Just do it.”!

Pensamentos podem ser imaginados como uma cadeia de associação de ideias, nem sempre temos controle sobre o que pensamos, pois de certo modo a interação com a realidade está a todo o momento “interferindo” na nossa atenção. O que se pode observar, entretanto, é que existem certos hábitos de pensamento, ou hábitos mentais, que revelam o nosso “jeitão” de ser. Nosso jeito, um conjunto de maneiras mais ou menos padronizadas, que é o modo pelo qual as pessoas nos reconhecem e nos percebem (nos apelidam, inclusive) e estão acostumadas a lidar, não é algo estático; não somos uma vítima do que fomos, somos agora um ser e ser é algo do agora. Ser é como se lida com a realidade do presente e, sim, é como se lida também com as lembranças do passado e as aspirações para o futuro.

A grande questão do relacionamento é: como lidar com o nosso passado? Quer dizer, como eu lido comigo mesmo e com as outras pessoas em relação ao que fui, ao que pretendo ser e ao que eles foram para mim? Como seria ser agora apesar de tudo isso?

É claro que esta matéria exige dois trabalhos, não muito desconhecidos, de modo que o primeiro deles pode ser chamado de autocrítica, ou reflexão, e o segundo pode ser visto como uma maneira meditativa de lidar com a realidade.

No segundo caso, é preciso dizer que meditação aqui será tratada como uma maneira, um hábito, de agir, ou seja, o “cara” que age desta forma é realmente uma pessoa que exercita não esperar de pronto e “armado” o passado, as tendências (normalmente ruins), das pessoas com quem ele lida no presente momento. Isso quer dizer que, normalmente quando pensamos numa pessoa de modo obsessivo, estamos tentando corroborar um sentimento que asseguraria (pois não assegura nada) que estaremos no controle da situação na próxima vez que iremos encontrar essa pessoa (preste atenção em como você pensa e em quem você pensa enquanto lava a louça, por exemplo). É claro que o diagrama mental da situação que imaginamos nunca se repete na realidade, às vezes acontece parecido (mas bem às vezes), mas o que importa aqui é que o sentimento já foi corroborado pelos nossos pensamentos e se estávamos reativando sentimentos não muito admiráveis, aí então, quando encontrarmos essa pessoa novamente, independentemente do teor da conversa, este sentimento vai guiar nossas ações. Normalmente o que acontece? Acertou! A pessoa também estava fazendo a mesma coisa; e daí o que acontece? O relacionamento em si torna-se uma retroalimentação dos sentimentos pouco ou nada admiráveis que estejam sustentando-o (neste caso, arruinando mesmo).

Não que a palavra aqui seja o “perdão”, mas pensemos na liberdade, uma chance que damos a nós mesmos para que nos libertemos de pensamentos que teimam insistir na nossa cadeia de ideias. Certamente este exercício está conectado com a reflexão. Mas, cuidado! Refletir pode ser também uma maneira porca, ou hipócrita, de lidar com nossos próprios desgostos, por isso certa atenção deve ser levada em conta quando tratamos deste termo. “Culpa” é outra palavra péssima, talvez seja por isso que “desculpa” é usada no lugar de “sinto muito”; sentir que falhou e refletir sobre isso é muito diferente de solicitar uma atenção do outro para que retire a “culpa” que está sentindo, quer dizer: “nem reflito em nada e deixo a cargo do outro que resolva meus problemas de ordem interna”. Boa! Só que não…

De desculpa em desculpa, de acusação em acusação um relacionamento vira pó, esvai-se. Lidar com o outro é certamente uma das tarefas mais difíceis, mais penosas e muitas vezes mais desgostosas que podemos experimentar no curso de nossas vidas (sempre ou quase sempre devido aos hábitos mentais que corroboram nossos hábitos de sentimento que induzem nossas ações porcas). Tudo isso por medo de não ter controle, por receio de ser motivo de desgosto (paradoxal, não?!), para dizer simplesmente: “Você é isso! E eu sou aquilo!”.

A interação na condição humana

“Você é assim e eu sou assado! Ou melhor, você é assado!”

Ser não é aquilo que foi e muito menos aquilo que “eu acho” que deveria acontecer; Ser é estar no agora, apesar de tudo. E “apesar de tudo” pode ser observado da seguinte maneira: apesar de tal pessoa estar no elevador com tal pessoa, apesar de tudo o que ela viveu, dos amores, dos desamores, das doenças, dos funerais, dos casamentos, dos cachorros, das viagens, das noites mal dormidas, das festas, dos abraços, das injeções, ela está aqui e agora dentro de um elevador com outra pessoa que provavelmente viveu mais ou menos tudo isso mais ou menos parecido. O alívio de Ser é que você é alguém que enxerga no outro não um inimigo pronto para jogar na sua cara todas as suas tendências maravilhosamente trabalhadas para a autoconservação da sua incrível reputação, mas alguém que reconhece no outro uma pessoa que pode compartilhar com você dores e amores parecidos. Infelizmente nunca serão dores e amores iguais, mas serão nesses pontos de discórdia que os novos exercícios da reflexão se farão válidos para novas interações e novas possibilidades de ajudar e ser ajudado com a dor que se sente e de sentir o amor, que é sempre parecido…

 

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Sobre o autor:

Felipe Bueno – Semioticista e psicanalista (PUC-SP, associação Livre-SP), atua na área de pesquisa em psicanálise lacaniana e semiótica peirceana; autor da pesquisa “A banalidade do mal sob a perspectiva da Ética” (PUC-SP 2016), uma releitura semiopsicanalitica do caso Eichmann e o fenômeno da banalidade do mal descrito por Hannah Arendt. Atualmente se debruça sobre o tema do pós-humano para tentar entender como as significações das coisas de hoje estão balizando o futuro da humanidade na Terra.

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