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A frustração do século XXI: O sexo virtual e o vazio individual

O sexo virtual e o vazio individual

Seleção do Editor

A frustração do século XXI: O sexo virtual e o vazio individual

As nossas expressões sumiram para dar lugar aos emoticons. ”Eu te amo” se converteu em um coração de Gif , o sexo agora é troca de ”nudes” e nós nos transformamos em seres cibernéticos, presos à lógica mecânica das máquinas.

Sexo virtual: estamos numa época masturbatória, de bolhas ambulantes, numa busca estridente por uma troca verdadeira de vazios… 


Falar em vazio é caminhar em uma ponte larga, de superfície escura e escamosa, porém intransponível… todos hão de passar por ela, todos os dias.  O sexo é a satisfação do corpo, da pulsão sexual, do apetite pecaminoso. O desejo Pinga, como disse Nelson Rodrigues. Todavia, há sempre um abismo, um vazio, que parece andar de mãos dadas em uma dança circular com o sexo. Beijo na boca, língua na língua e os corpos se entrelaçam, sugando uns dos outros toda a potência animal.

As Redes Sociais deram um grande salto na Revolução Sexual. A Internet virou um Motel de encontro à distância, que alimenta o desejo por meio de imagens que refletem partes sexualizadas do corpo, que para alguns é convencionado chamar de ”Nudes”. Se você é do tipo ”Padre Fábio de Melo” e nunca ouviu essa expressão, certamente você deve ser um senhor ou uma senhora de 70 anos.

O ”Nudes” foi a forma que a modernidade encontrou para transformar o sexo em uma forma de masturbação a dois, em que há uma troca voluntária de intimidades para que cada um se satisfaça consigo mesmo, cada um em seu lugar, separados pela distância física e impossibilitados de sentir o calor do outro, só resta a individualidade e o vazio de átomos que não se ligam.

Estamos em uma época masturbatória, de bolhas ambulantes, limitadas pelo próprio círculo que as encarcera, numa busca estridente por uma troca verdadeira de vazios.  Se antes o Sexo já era Líquido – pra usar a expressão de Bauman – hoje ele evaporou completamente, agora só resta a chama que transforma a água em vapor e se encarrega de extirpar qualquer contato humano.

Se Woody Allen estiver certo, e acredito que esteja, pelo menos no contexto atual, a masturbação é fazer sexo com a pessoa que a gente mais ama. Sendo assim, a pergunta posta é: somos os únicos mamíferos que fazem isso? Biólogos de plantão, respondam, por favor.

Nesse prisma, Karl Kraus foi ainda mais certeiro quando afirmou:

”Uma mulher é, às vezes, uma alternativa satisfatória à masturbação.” 

Talvez antigamente, na época em que as casas eram cavernas ornadas por traços grossos, o sexo fosse realmente vivido como uma experiência animalesca, aquilo sim era declinar em meio ao desejo, perder as rédeas, puxar cabelo, engasgar com o instinto sexual. Hoje o mais próximo que temos disso é o filme ”50 Tons de Cinza”, que também serve como material masturbatório.

 

O sexo virtual e o vazio individual

As nossas expressões sumiram para dar lugar aos emoticons. ”Eu te amo” se converteu em um coração de Gif , o sexo agora é  troca de ”nudes” e nós nos transformamos em seres cibernéticos, presos à lógica mecânica das máquinas. “O amor a si mesmo” é o primeiro mandamento da internet, a regra indelével da modernidade vigiada pela inquisição da AUTOAJUDA.  A religião sucumbe e com ela a noção de alma, restando apenas um corpo e suas necessidades materiais e biológicas que devem ser supridas de qualquer maneira, independente do próximo. Não há saída, qualquer relação hoje está sujeita a se tornar um produto em uma mercado negro, e como toda mercadoria, traz a sua validade desde sua concepção.

Quando avistamos um IPHONE que supera aquele que nós temos, na lógica do consumo, largamos o antigo em prol do novo. Assim também acontece com as nossas relações, olhamos para o mercado do amor em busca de um amor mais ”atualizado” e seguindo à lógica que Bauman tantas vezes aduziu, qual seja, a lógica do consumo.  O amor deixou de ser sacrifício e se tornou benefício individual, as pessoas só o perpetuam quando entendem que serão beneficiados individualmente, a distribuição de vazios está na raiz da modernidade e perverte o tronco e as folhas.

O sorriso falso nas fotos, os amores falsos nos sorrisos, eis a tragédia do século: a confusão entre o ” ser” e o ”parecer”, movidos pela padronização que dita o que eu devo ser. O Ego incha e se transforma em uma bolha gigante que inclina e aumenta a cada curtida, o sexo e o amor são sublimados pela individualização insossa e vazia.  Na idade Média o Sol girava ao redor da Terra. Na Moderna, a Terra girava ao redor do Sol. Na Idade Contemporânea, a Terra gira ao redor dos Egos.

 

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Sobre o autor:

Colunista dos sites Genialmente louco e Caminhos, estudante de Direito e Filosofia, poeta solitário de textos escondidos e, não poderia deixar de dizer, um grande fã de Shakespeare. Eu, você, ele... Tanto faz! Vamos todos morrer um dia.

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